Há quem chame competições esportivas de inúteis, alienadoras e mantedoras da política do pão e do circo.
Entretanto, o que poucos enxergam é a riqueza de material de análise sócio-antropológicas de eventos como, por exemplo, a Copa do Mundo. Como os brasileiros se comportam nos eventos em que valem reconhecimento e fama mundiais? Como torcedores e competidores compreendem um evento desta magnitude?
Reparem nas formas como competidores e tocedores agem em anos de copa do mundo. Reparem como as mídias tratam cada notícia, seja ela boa ou ruim. Reparem como nosso país para em cada jogo. Reparem como nós brasileiros encaramos vitórias e derrotas.
Alguém aí percebeu que um técnico brasileiro precisa ser mais que um técnico de futebol? Ele precisa ter caracteríticas de funcionário de 190 milhões de pessoas. Ele precisa ser pai de uma sociedade inteira. Ele precisa ser o responsável pela alegria nacional. Sem seleção brasileira de futebol, sem hino nacional, bandeira ou cânticos de louvor à pátria. Uma derrota nas quartas de futebol representa depressão, raiva e vontade de apagar a brasilidade das ruas.
A mídia procura culpados. As pessoas procuram explicações.
Alagoas e Pernambuco continuam no caos, na calamidade. Mas a única notícias que importa é: o que acontecerá com Dunga?
Brasileiros passam fome para comprar a bandeira nacional que durará o tempo de participação da seleção na copa. Meus amigos do orkut só falam da demissão ou louvação de Dunga.
Mas o que significa tudo isso? Por que nossas esperanças de reconhecimento e fama mundiais precisam estar atrelados ao circo, não à política? Por que precisamos negar a brasilidade a cada desclasisficação brasileira?
Alguém sabe explicar porque a bandeira nacional voltará para o fundo da gaveta? Ou por que os muros serão lavados de orgulho ferido? Ou porque continuamos sem saber cantar a única música que liga norte e sul, leste e oeste? Porque nosso orgulho não fere nos mensalões? Porque nosso horror não aparece nos casos de pedolifia e maus tratos contra crianças e adolescentes? Por que nosso horror não se manifesta nas notícias de cadeias públicas superlotadas de indivíduos maltratados pela vida e pelo Estado.
Por que nos maltratamos? Por que nos odiamos?
Por que continuamos gostando mais do circo, da piada sem graça e da falta de auto-estima?
Por que não somos brasileiros todos os dias, meses e anos?
Por que o Felipão não aceita o cargo na seleção?
Por que? Por que? Por que?
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